Para novos medicamentos, busque os pioneiros.

Pesquisa mostra que a maioria dos remédios que revolucionaram a sua área tem origem na ciência orientada pela curiosidade.

Tradução do editorial: https://news.harvard.edu/gazette/story/2018/04/most-transformative-meds-originate-in-curiosity-driven-science-evidence-says/

Seríamos sábios em priorizar a ciência “pronta para o uso” em vez de programas de pesquisa fundamental orientados pela a curiosidade? No longo prazo, isso prepararia o terreno para a descoberta de mais remédios?

Para encontrar respostas sólidas para essas questões, cientistas de Harvard e do Instituto Novartis de Pesquisa Biomédica (NIBR), publicado na Science Translational Medicine, analisaram profundamente a descoberta de drogas e mostraram que, de fato, a pesquisa fundamental é “o melhor caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos”.

“As descobertas que levam à criação de um novo medicamento geralmente não se originam em um experimento que se propõe a produzir um medicamento. Pelo contrário, eles têm suas origens em um estudo – ou muitos estudos – que buscam compreender um processo biológico ou químico , disse Mark Fishman (professor do Departamento de Células-Tronco e Biologia Regenerativa de Harvard), um dos três autores do estudo. “E muitas vezes passam muitos anos, e muita evidência científica se acumula, antes que alguém perceba que talvez esse trabalho tenha relevância para uma terapia médica. Apenas em retrospectiva parece óbvio ”.

CRISPR-cas9 é um bom exemplo descoberta de funcionamento de sistema biológico que abriu novas oportunidades na terapêutica. Começou como um estudo de pesquisa básica, sobre como as bactérias resistem à infecção por vírus. Os cientistas descobriram que as ferramentas que as bactérias usam para cortar o DNA de um vírus invasor podem ser usadas para editar o genoma humano e, possivelmente, prevenir doenças genéticas. As origens da CRISPR-Cas9 não eram utilitárias, mas essas descobertas têm o potencial de abrir um novo campo de medicina genômica.

A medicação para pressão sanguínea é outro exemplo de como as descobertas de fisiologia básica podem levar a medicamentos inovadores.

Pessoas que sofrem de pressão alta, muitas vezes tomam medicamentos que agem bloqueando a enzima conversora de angiotensina. Esses medicamentos nunca teriam sido criados sem a descoberta do papel da renina (uma enzima renal) na regulação da pressão arterial em 1898, ou sem a descoberta da angiotensina em 1939, ou sem a sólida compreensão de como a enzima funciona, mostrada em 1956.

Este trabalho não tinha o objetivo de a fazer pílulas para hipertensão, principalmente porque a hipertensão era geralmente considerada inofensiva até a década de 1950, quando estudos mostraram sua relação com doenças cardíacas. Antes disso, o controle da pressão arterial era em si uma ciência fundamental, começando com a medida da pressão sanguínea de Stephen Hales em um cavalo em 1733.

A descoberta dos inibidores da ECA realmente reflete a convergência de dois campos de descobertas fundamentais, orientadas pela curiosidade.

No entanto, alguns observadores acreditam que projetos que possam demonstrar antecipadamente que poderiam produzir algo útil devem ter prioridade sobre projetos que exploram questões fundamentais. Haveria muito mais medicamentos se os acadêmicos se concentrassem mais em programas com resultados práticos? Como essa mudança afetaria as pessoas no futuro?

Para encontrar respostas, Fishman e seus colegas investigaram os muitos caminhos científicos e históricos que levaram a novas drogas. O estudo que eles escreveram é um olhar contemporâneo sobre as evidências que ligam a pesquisa básica a novos medicamentos.

Os autores usaram uma lista das 28 medicamentos definidos por outros cientistas como os medicamentos “mais transformadores” nos Estados Unidos entre 1985 e 2009. O grupo examinou:

  • Se a descoberta do medicamento começou com uma observação sobre as raízes da doença;
  • Se o pesquisador acreditava que seria relevante fazer um novo medicamento; e
  • Quanto tempo se demorou para perceber isso.

Eles descobriram que oito em cada 10 medicamentos de sua lista resultaram de uma descoberta de ciência básica – ou uma série de descobertas – sem um caminho claro para uma nova droga.

O tempo médio desde a descoberta até a aprovação de novos medicamentos foi de 30 anos, a maioria dos quais foi geralmente gasta na academia, antes que empresas farmacêuticas ou de biotecnologia iniciassem os programas relevantes de desenvolvimento de medicamentos.

Fishman concluiu: “Não podemos prever qual descoberta de ciência básica levará a um novo medicamento. Mas eu diria, a partir desse trabalho e de minhas experiências como descobridor de novps medicamentos e pesquisador de ciência básica, que a base para a próxima onda de grandes drogas está sendo preparada hoje por cientistas motivados pela curiosidade sobre o funcionamento da natureza.”

ARTIGO COMPLETO: http://stm.sciencemag.org/content/10/438/eaaq1787